DENTRO DOS LIVROS
Queridíssimo Daniel
Hoje resolvi falar contigo,
falar das nossas coisas, das coisas que ambos gostamos. Sabes onde estou e se aí
tenho diiculdade em encontrar alguém que me escute, imagina aqui...
Fui muito bem recebida, à
chegada, pelo casal Santos e o calor fez o resto, ou seja, o meu corpo deu
sinais de contentamento, fugindo de uma existência reumática, aí em terras do
Alto Minho.
Trouxe comigo três livros: “
O Retorno" de Dulce Maria Cardoso; "A Ilustre Casa de Ramires"de
Eça de Queirós e "A Estação das Chuvas"do Águalusa. A Dulce Maria
Cardoso surpreendeu-me e conquistou-me, estou rendida ao seu estilo. Ainda não
peguei na Estação das Chuvas, será uma releitura. Agora vê lá! Pela primeira
vez o Eça cansou-me! Achei o livro
pesado e um tanto ou quanto enfadonho, com aquele recorrer constante aos
antepassados do sec.XIII e às suas sucessivas lutas, sempre em defesa do bom
nome dos Ramires.
Nem sei porque te falo
disto, tu sabes da minha paixão pelo Eça de Queirós.
Bem...
Mas, a minha razão primeira
de hoje me ter lembrado de te procurar, vem de outro escritor: Julião
Quintinha. Tu também sabes, outra das minhas paixões.
Deves lembrar-te que este
casal amigo esteve na minha casa, em Braga, há uns 4 anos. Na altura e porque
tinha dois volumes iguais, dei ao Carlos o livro "África Misteriosa"
do Julião Quintinha. Talvez o seu livro mais conhecido; talvez o mais intensamente
vivido pelo ilustre jornalista; talvez o que mais me toca, de toda a sua obra.
Pois bem... Vim encontrá-lo
triste. O livro. A capa separada das folhas e, dentro delas, bocados da mesma
capa; todo o livro despedaçado. Desconheço a causa de tal maldade.
Então - já estás a ver-me
- dediquei o resto da minha tarde a
restaurar aquele pobre relicário de história,descobertas, sonhos, desilusões e
esperanças. Tudo saido de uma alma nobre, incansável e que lutou com a sua pena
contra gigantescos moinhos de vento, como se fora a lança de D.Quixote!
Achas que estou a ser
lírica? Não. Lembra-te que até a P.I.D.E. lhe fez a vida negra e acredito que,
algumas vezes o "Lápis Azul" deve ter funcionado sobre alguns artigos
seus.
Forrei o livro com uma capa
improvisada - nesta casa simples tudo é improvisado - e com um carinho todo
festa, comecei a relê-lo.
Ai meu Amigo... Quem me dera
ter-te aqui ao meu lado e poder olhar para ti, enquanto lesses de novo - eu sei
que também tu já o leste - este tesouro escrito quase há 1 século!
Aqui, em África, neste chão
que ele pisou e amou durante dois anos seguidos; aqui onde ele alimentou todas
as suas mais puras e ingénuas esperanças,
lê-lo, ouví-lo, é diferente. Uma coisa é eu ter lido este livro na nossa
Europa fria, civilizada. Outra coisa é eu estar a escutá-lo em África. A África
que ele tanto amou.
Num parágrafo do seu
Prólogo, quase no final, diz ele:
"Mais do que o mistério
das selvas, do que o panorama das paisagens exuberantes, do que todos os
motivos estéticos da graça e da beleza gentílica, avulta esse humaníssimo
problema que a Ciência e a Humanidade
deverão resolver"
E eu olho à minha volta,
vezes sem conta - tu bem sabes que é a quinta vez que me desloco a estas
paragens - e estremeço...
Nem os Tecelões de Peito
Amarelo, trabalhando incansáveis na
construção de seus ninhos ( disseram-me
hoje que se o ninho não estiver ao agrado da fêmea, esta desfaz o ninho e ele,
pobrezinho, começa tudo de novo) , nem os Rabos-de-Junco, nem as andorinhas que
abalaram daí para cá, me acalmam.
À minha volta os mesmos
olhares tristes de sempre, o mesmo arrastar de corpos... Só mudaram os donos.
Respiro o ar quente
adocicado e piso a terra barrenta, outrora olhada por ele e as mesmas
inquietações que lhe tiravam o sono, acredita, são as mesmas que me trazem
horas de vigília noite após noite.
A Ciência deu passos de
gigante mas o humanismo deu lugar ao egoismo.E o fosso entre exploradores e
explorados é cada vez maior. Mas não se vê, tem uma côr só...
Desculpa atirar-te o meu
desassossego para cima. Deveria apenas falar-te do sol, das frutas e das
flores; contar-te as minhas descobertas matinais no meio da bicharada, mas...
Obrigada por seres o meu
eterno "Ouvidor". Sorte a minha ter-te.
E, atravessando todo o
Continente para o Norte, aí vai o meu abraço, daqui do Sul que é o nosso chão
misterioso.
Raquel
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