sexta-feira, 10 de abril de 2015


                         DENTRO DOS LIVROS

Queridíssimo Daniel
Hoje resolvi falar contigo, falar das nossas coisas, das coisas que ambos gostamos. Sabes onde estou e se aí tenho diiculdade em encontrar alguém que me escute, imagina aqui...
Fui muito bem recebida, à chegada, pelo casal Santos e o calor fez o resto, ou seja, o meu corpo deu sinais de contentamento, fugindo de uma existência reumática, aí em terras do Alto Minho.
Trouxe comigo três livros: “ O Retorno" de Dulce Maria Cardoso; "A Ilustre Casa de Ramires"de Eça de Queirós e "A Estação das Chuvas"do Águalusa. A Dulce Maria Cardoso surpreendeu-me e conquistou-me, estou rendida ao seu estilo. Ainda não peguei na Estação das Chuvas, será uma releitura. Agora vê lá! Pela primeira vez o Eça cansou-me!  Achei o livro pesado e um tanto ou quanto enfadonho, com aquele recorrer constante aos antepassados do sec.XIII e às suas sucessivas lutas, sempre em defesa do bom nome dos Ramires.
Nem sei porque te falo disto, tu sabes da minha paixão pelo Eça de Queirós.
Bem...
Mas, a minha razão primeira de hoje me ter lembrado de te procurar, vem de outro escritor: Julião Quintinha. Tu também sabes, outra das minhas paixões.
Deves lembrar-te que este casal amigo esteve na minha casa, em Braga, há uns 4 anos. Na altura e porque tinha dois volumes iguais, dei ao Carlos o livro "África Misteriosa" do Julião Quintinha. Talvez o seu livro mais conhecido; talvez o mais intensamente vivido pelo ilustre jornalista; talvez o que mais me toca, de toda a sua obra.
Pois bem... Vim encontrá-lo triste. O livro. A capa separada das folhas e, dentro delas, bocados da mesma capa; todo o livro despedaçado. Desconheço a causa de tal maldade.
Então - já estás a ver-me -  dediquei o resto da minha tarde a restaurar aquele pobre relicário de história,descobertas, sonhos, desilusões e esperanças. Tudo saido de uma alma nobre, incansável e que lutou com a sua pena contra gigantescos moinhos de vento, como se fora a lança de D.Quixote!
Achas que estou a ser lírica? Não. Lembra-te que até a P.I.D.E. lhe fez a vida negra e acredito que, algumas vezes o "Lápis Azul" deve ter funcionado sobre alguns artigos seus.
Forrei o livro com uma capa improvisada - nesta casa simples tudo é improvisado - e com um carinho todo festa, comecei a relê-lo.
Ai meu Amigo... Quem me dera ter-te aqui ao meu lado e poder olhar para ti, enquanto lesses de novo - eu sei que também tu já o leste - este tesouro escrito quase há 1 século!
Aqui, em África, neste chão que ele pisou e amou durante dois anos seguidos; aqui onde ele alimentou todas as suas mais puras e ingénuas esperanças,  lê-lo, ouví-lo, é diferente. Uma coisa é eu ter lido este livro na nossa Europa fria, civilizada. Outra coisa é eu estar a escutá-lo em África. A África que ele tanto amou.
Num parágrafo do seu Prólogo, quase no final, diz ele:
"Mais do que o mistério das selvas, do que o panorama das paisagens exuberantes, do que todos os motivos estéticos da graça e da beleza gentílica, avulta esse humaníssimo problema  que a Ciência e a Humanidade deverão resolver"
E eu olho à minha volta, vezes sem conta - tu bem sabes que é a quinta vez que me desloco a estas paragens - e estremeço...
Nem os Tecelões de Peito Amarelo, trabalhando incansáveis  na construção de seus ninhos  ( disseram-me hoje que se o ninho não estiver ao agrado da fêmea, esta desfaz o ninho e ele, pobrezinho, começa tudo de novo) , nem os Rabos-de-Junco, nem as andorinhas que abalaram daí para cá, me acalmam.
À minha volta os mesmos olhares tristes de sempre, o mesmo arrastar de corpos... Só mudaram os donos.
Respiro o ar quente adocicado e piso a terra barrenta, outrora olhada por ele e as mesmas inquietações que lhe tiravam o sono, acredita, são as mesmas que me trazem horas de vigília noite após noite.
A Ciência deu passos de gigante mas o humanismo deu lugar ao egoismo.E o fosso entre exploradores e explorados é cada vez maior. Mas não se vê, tem uma côr só...
Desculpa atirar-te o meu desassossego para cima. Deveria apenas falar-te do sol, das frutas e das flores; contar-te as minhas descobertas matinais no meio da bicharada, mas...
Obrigada por seres o meu eterno "Ouvidor". Sorte a minha ter-te.
E, atravessando todo o Continente para o Norte, aí vai o meu abraço, daqui do Sul que é o nosso chão misterioso.

Raquel









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