A DESCOBERTA
DAS CORES QUE TEM A DOR
ACABEI DE COMER UMA SUCULENTA
MANGA
Acabei de comer uma suculenta
manga no lavatório da casa de banho do Hotel da “Mola-Dura-Buraco-Sujo”, em
Blantyre; a manga foi cortada com o facalhão de caça do João Luís; sumarenta,
carnuda, divina, fiquei babada e suja. Quero lá saber!
Estamos de regresso a Moçambique,
acabados de sair do Malawi, e vamos pernoitar aqui a fim de iniciarmos a
viagem. Torna-se urgente apontar todos os pormenores, factos, vivências, já que
esta aventura, na minha vida, não se repetirá.
“Tá-me” a picar um mosquito,
Tchapp!– Foi-se! – Hi! Hi!
Saímos de Alberton, África do
Sul, a uns 10 Kms de Johannesburg, a 21 de Dezembro, eu o João Luís a minha
doce nora Helena e a minha neta Alícia, a número nove na escala dos últimos
descendentes.
Já lá vão alguns dias e aconteceu
de tudo!
No primeiro dia, de Alberton a
Matola – perto de Maputo – fizemos 700 Kms de uma assentada!
No fim do dia, fiquei admirada
com a minha resistência e com a tranquilidade da Alícia de apenas 11 meses. O
João Luís já “bufava” pois havíamos esquecido o guarda-sol; dizia mal à vida e
dizia, ainda:
- Estranho tudo o que me está a
acontecer há dias!
- Compra-se outro – disse eu.
- Pois sim!... Never!
No segundo dia viajámos até
Xai-Xai; no terceiro até Inhambane, depois Inhassoro, Chimoio, Beira, novamente
Chimoio, Tete, Vila Coutinho, Liwonde e depois acabámos em Mangochi – Malawi.
No regresso voltaremos por Zomba, Blantyre e novamente Tete, descendo
Moçambique, para o Sul.
A grande maioria das cidades
adoptaram outros nomes, como é natural e isso, sem querer, soava-me estranho,
trazia-me à lembrança outras designações aprendidas na escola primária, como é
o caso de Vila Pery que agora se chama Chimoio.
EM MLANGUEI
Em Mlanguei, já na fronteira com
Malawi, estivemos em casa da família da Helena. Tive ali uma surpresa
maravilhosa: o encontro com uma bosquimane.
Velhinha, magra e pequenina; não
sabia a idade nem de onde tinha vindo ou quem a teria trazido para aquele
local. Pensa-se que terá vindo pelas mãos de algum mercador que comerciava pela
selva. Não falava de forma onomatopaica – aos estalinhos – já tinha assimilado
o idioma local. Falámos por gestos, beijei-a, abracei-a e quase lhe peguei ao
colo, adorando a sua fragilidade; rimos muito e na despedida dei-lhe uma boa
quantia de Kwachas para ela poder comprar um pano ou outra coisa. Agarrou-se a
mim aos beijos, enquanto eu lhe olhava os pés, secos, duros, parecendo de barro
talhados a sustentar um pequeno corpo de história feito, perdido na imensidão
da floresta africana. É incontestável, só África nos traz e mostra a essência
da vida. Ali, o acessório cai por terra. África mexe-nos bem dentro, parece
chegar-nos aos recônditos dos últimos alvéolos dos pulmões, onde já mais nada
tem lugar. Toma conta do nosso corpo e da nossa mente, numa possessão a que nos
entregamos rendidos e o que parece escravidão é encantamento que, para todo o
sempre, se transforma em êxtase. Tudo isso, uma vez mais, eu sentia naquele
lugar, naquele chão, naquela hora.
DEIXÁMOS O MALAWI
Deixámos o Malawi e começámos a
descida rumo a casa.
Ao chegarmos hoje aqui, ao Hotel
da Mola-Dura-Buraco-Sujo, em Blantyre, o João Luís disse ser este um hotel
razoável – estávamos cansados de procurar hotel – a diária 2.000 Kwachas. (1
Euro -190 Kwachas). Arranjaram-nos dois quartos.
Ora como já estou escaldadíssima
fui dizendo ao João Luís para ver bem os quartos.
– Óh mamã o hotel é novo!...
Fui ver: o banheiro modesto,
decente, ou seja, limpo, os sanitários normais, a água corria no chuveiro,
quente e fria. Vá lá…
Ao vermos os quartos, o João Luís
já punha as mãos na cabeça: o cheiro a catinga dormida era intenso; os lençóis
escuros e sujos. Desci à recepção reclamando por lençóis limpos e a empregada,
(a única antipática que encontrei em Moçambique) atirando o livro de registo
disse: - Estão lavados! E chegou-se para perto de um aquecedor eléctrico que
tinha aos pés e que, até hoje, não consigo perceber por que o tinha ali, num
País a arder de calor.
Subi, danada, ao quarto e saquei
os lençóis e coberta da cama. Gelei!
Fui a correr ao quarto do João
Luís e disse:
– Vejam a cama!
E lá estava o mesmo horror: o
lençol sujo, fedorento e rasgado em todo o lado, a tapar as molas soltas do
colchão. Agarrei no lençol todo rasgado e cheguei à recepção onde acabava de
entrar um “VIP” saído de um Mercedes topo de gama: abri os braços segurando o
trapo e perguntei se aquilo era um lençol.
– I’m sorry lady – disse a
enjoadinha da Silva, revirando os olhos.
Agora quero ver como vamos
dormir?... Pensei. Dobrei cobertores, coberta e pus almofadas sobre as molas e
ainda os lençóis, igualmente sujos, que uma empregada acabava de me apresentar.
“Aterrei” nas ditas molas embalada pelo aroma quente e denso de catingas antigas
entranhadas na alcatifa que, descobri, serve neste País para disfarçar toda a
porcaria, Tachapp! (mais um mosquito!).
ONTEM DORMIMOS EM MANGOCHI
Ontem dormimos em Mangochi, à
beira do Lago Malawi – na outra margem chama-se Lago Niassa, ou seja, o Lago é dividido
ao meio, a parte ocidental pertence a Malawi, a parte oriental a Moçambique –
no Resort Palm Beach.
Um paraíso! Para lá chegarmos
andámos 1 Km de terra vermelha cheia de buracos e lama, a lembrar a Baixa de
Kassange; tinha chovido muito nas últimas horas e se não fosse o nosso “Isuzu”
que teve de meter a “ traição às quatro rodas” ali ficávamos atolados; a lama
voava pelo ar em repuxos grotescos e belos.
O Resort é composto por pequenas
cabanas cobertas a colmo e à sua volta há uma imensidão de árvores tropicais,
lindas, exóticas, eternas… O lago tem 600Km de comprimento! Em dias de temporal
chega a ter ondas de 2 metros, dizem; a água é doce e tem peixes azuis; o peixe
mais conhecido é o “Chambo” o qual tem uma carne parecida com a garoupa embora
seja cinzento.
Eu e o João Luís levantamo-nos às
5 da manhã e fomos para a margem do Lago ver os pescadores a chegar. Ao sairmos
da casinha, um bando de morcegos saiu debaixo do telhado de colmo, assustados e
fugiram em várias direcções. Daí para a frente foi o espanto total: à nossa
frente saltitavam rolinhas, celestes, toutinegras, red-bishops, robis, pássaros
de cor vermelha a lembrar papagaios e outros de que nem sei o nome; esquilos
brincalhões foram também aparecendo à nossa frente e fiquei com a certeza de
que estavam todos a saudar o raiar do sol que aparecia sobre o lago imenso,
adormecido, de tonalidade azul acinzentado. Por essa altura desataram numa
cantoria única: maviosa umas vezes depois alegre, gritante, barulhenta,
conforme a garganta de quem entoava o canto e o peito de quem aguentava mais.
Corremos atrás dos esquilinhos que fugiram árvores acima. Apanhei conchas,
sementes e deixei-me estar frente ao Lago aceitando a minha imensa pequenez
perante a placidez do momento, respirando serenidade e muita paz. Depois
fotografei uma raridade: uma flor de um Imbondeiro que, penso eu, terá sido
cortado por uma faísca e ficou ali, dividido em dois, prostrado no chão. A flor
era linda, linda, enorme, carnuda e branca.
As casinhas, por dentro, não condiziam
com o exterior: as camas eram muito duras, o chuveiro da casa de banho deitava
pequenos esguichos de água a ferver e o lavatório era de bonecas; no quarto
havia um lavatório de cozinha e ali apareceu uma baratona a olhar-me, atenta, a
medir distâncias. Finou-se sob o meu chinelo. Valeu-me o mosquiteiro azul forte
enfiado bem apertado sob o colchão, a toda a volta da cama, onde me afundava ao
som dos “Il Divo”, no meu MP3 que, milagrosamente, me faziam esquecer o sempre
presente cheiro a corpo dormido a exalar das camas dos hotéis. E dormi.
Dormi de tal
jeito que devo ter andado a vogar sobre as casinhas, sobre o Lago Malawi, sobre
as árvores e a ouvir conversas estranhas de criaturinhas que tinha observado à
tarde e me haviam fitado curiosas:
CARLOTA E MIMI
– Livra!.. Que calor Carlota! Está a custar-me
tremendamente descolar as pernas. Quem diria que, já ao fim da tarde, haveria
de fazer tal calor!? Ali à frente o Lago está naquele tom azul esverdeado que
indica, quase sempre, uma aragem fresca e doce mas hoje enganou-me. E depois…
esta barriga! Até parece que estou à espera de filho. Os membros pesam-me, olha
como me arrasto!
– Oh! Também não percebo porque
te queixas tanto!! Olha para mim, olha para a minha barriga, é tão grande como
a tua. Mimi!!! Olha, olha, atenção querida! A luz acendeu-se, agora é que vai
ser… Prepara as Kinamas.
Quando Mariquinhas – a
Mariquinhas era eu, vogando por ali, numa forma etérea – acendeu a luz do
varandim do bungalow encantou-se, ou melhor, ficou espantada com a quantidade
de insectos, de tamanhos vários, que vinham bailar à volta da lâmpada colocada
na parede; quando cansados, pousavam e depois retomavam o voo. Era nessa altura
de descanso que tudo acontecia: Carlota e Mimi, esquecendo as dores das
articulações, a barriga cheia, bem dilatada e as imensas tarefas do dia e noite
anteriores, saltavam. Saltavam de uma forma incrível, extraordinária,
desafiando as leis da gravidade; pareciam camaleões em miniatura e seus olhitos
dilatados, de cor esverdeada, ficavam maiores, disformes; as barrigas
transparentes aumentavam, parecendo rebentar. Mariquinhas ficou estática, presa
ao espectáculo invulgar e incapaz de arredar pé do varandim; os seus olhos
lacrimejavam olhando as bichinhas-osgas e via bem como elas a olhavam receosas,
reparava como elas antes de arriscarem um salto olhavam para si, atentas.
– Logo agora tinha ela de aparecer, que chatarrona, não
achas Mimi?
– Não, não acho, – dizia a
Carlota –. Não me parece que tenhas razão. Repara naqueles cristais nos olhos
dela. Eu aprendi, com o tempo, que as pessoas de olhos brilhantes, parados e
com o ar de quem descobriu um tesouro, meio apatetadas, são doces e meigas. E
vê lá Carlota, outro dia eu vi ela a andar com mil cuidados a admirar a nossa
prima, a Juliana, que estava, dengosa, a tomar banhos de sol sobre uma pedra.
Ela dizia assim – Zefineta!... Zefineta!... Claro que a Juliana fugiu!
– Pois, pois…põe-te com essa treta toda e não vejas os
anophelis que chegaram agora; sabe lá a gente quando volta a ter tanta fartura!
No enlevo de alma em que se
encontrava, Mariquinhas nem reparou numa enorme “ Baratona” de dorso cor de
chocolate, acabada de aterrar na porta de madeira, ao seu lado. Se a tivesse
visto seria uma catástrofe para todos pois era bem sabido e conhecido o terror
de Mariquinhas, ao ver perto tal bicho nojento e fedorento.
Carlota e Mimi estavam atentas,
adivinhavam terramoto por ali…Já tinham contado a toda a família, lá em casa, o
episódio pitoresco, hilariante, passado com Mariquinhas, em Malange, quando ela
vivia em Angola, por causa de uma barata enorme, cinzenta, que entrou por uma
janela da escola, à noite, e lhe foi pousar no pescoço. Contou ela que tinha
gritado tanto que um colega virou a carteira com o susto. Ah! Ah! Como a
família tinha rido. Até chamaram os amigos que pediram para repetir o caso.
Ultimamente, até andava atenta a ver se Mariquinhas contava mais alguma
história de baratas.
– Hum…Hum…. Mimi…. Olha onde
aquela atrevida foi pousar! Ali na porta, ao lado da Mariquinhas!
Nesse momento Mariquinhas deu
pela presença da castanhuda que olhava para ela como que a medir forças ou
distância para lhe saltar em cima. Recuou, mão na boca, a pensar o pior. E foi
aí, ao afastar-se que viu, pasmada, como Carlota e Mimi encetavam uma
estratégia de ataque: mansamente, delicadamente, avançavam seus corpinhos
brancos de barriga quase transparente, faziam lembrar leoas a preparar o ataque
à presa. Quando tiveram a certeza que Mariquinhas as não ia incomodar, voaram!
Mimi, talvez por estar mais leve, chegou primeiro, abocanhou a viajante
intrometida e com a bicha meia fora da boca desatou a correr para o abrigo do
seu lar, ali bem por baixo do colmo, a servir de telhado à casa junto ao Lago.
Curioso é que, por essa altura, surgiram mais dois vizinhos das duas amigas a
quererem disputar aquele manjar.
Mariquinhas deixou-se ficar
encostada à balaustrada da varanda num encantamento de alma, quase adormecida.
Pensava como era fácil gostar daquelas osgas pequeninas… O que ela não sabia
era do “festival” que acontecia na casa de Mimi. Esta, depois de ter feito a
digestão da bicharona-baratona, chamou filhos, marido e vizinhança e
contou-lhes (com mais alguns aumentos…) os momentos vividos junto da
Mariquinhas. Depois falou-lhes da calma em que Mariquinhas havia ficado após se
ver livre da barata e descreveu-lhes, também, os miríades de cristais que
Mariquinhas fazia nascer nos olhos cada vez que se encontravam, ao fim do dia,
perto do Lago.”
E foi com os olhos rasos de
lágrimas que acordei na manhã seguinte. Olhei à minha volta e vi tudo azul. Era
o mosquiteiro. De Carlota e de Mimi nem sombra. Saltei da cama e fui lá fora
olhar a parede onde, em sonhos, as tinha visto e elas me tinham encantado.
Nada.
Apenas vi pequeninos esquilos
brincando pelo chão mas, juro, escutei um pequeno restolhar sobre mim, rente ao
teto da casinha e vi uma pequenina cauda rosada a desaparecer por entre as
palmeiras secas. Sorri e parti a juntar-me ao raiar da aurora, junto ao Lago
Malawi. Breve partiria e aquela magia não se iria repetir nunca mais.
TETE
No dia anterior, antes de
partirmos para Malawi, tínhamos ficado em Tete, estrada nacional 103. O quarto
era simples, só com uma cama de casal, pelo que tivemos de pedir um colchão
extra para colocar no chão. Calhou-me a mim dormir naquela cama improvisada, o
que não me incomodava, só receava pelos bichos voadores; assim, antes de me
deitar, tapei a frincha por baixo da porta que dava para um jardim, frente ao
frondoso rio Zambeze, onde passeava, indiferente, um majestoso sengue,
naturalmente atento à chegada de algum jacaré. De manhã, ao acordar, sacudi do
corpo pequenas carochas pretas e uma delas deixou marca na camisa de noite pois
devo tê-la esborrachado ao dormir, parecia melaço preto, pegajoso. A casa de
banho era pobre e as toalhas porcas e velhas, a minha salvação foi ter comprado
uma toalha antes de iniciar a viagem que levei comigo e lavava vez por outra,
bem como uma caixa de “Dodotes” para emergências várias…
E a comida!?... Este capítulo é
riquíssimo!
Há 4 dias que comemos galinha com
batata, com arroz, ou com massa de milho…
É assim:
– Por favor, a ementa.
A ementa vem toda elaborada,
pomposa, carnes várias, peixes, saladas, a contrastar com os locais a que
chamam restaurantes que são pobres e sujos e a única riqueza que têm são as
pessoas, os empregados, de uma simpatia impar, de sorrisos francos, abertos,
fazendo duvidar de que, alguma vez, este País esteve em guerra. Não é possível
exigir ou ser agressivo com este povo, tão dócil, tão despido de vaidade, tão
em paz com tudo à sua volta.
– Queremos este peixe grelhado.
–Nu tei peixi…
–(?!) E carne?
– Tem um bifi…
–E comida já feita, tem alguma?
–Nu tei…
–Traga galinha…
Normalmente espera-se 1,30 a 2
horas pela comida e em Dedza foi assim, 2 horas. Quando eu já desesperava de
fome, o João Luís revirava os olhos e já tinha amaldiçoado tudo e todos, a
Helena espalhava à sua volta tranquilidade e a Alicia deitava o mundo abaixo
com o choro, chamei o empregado e disse:
– Já não posso mais, ou me trás
comida ou caio aqui para o lado.
– A água está firver pra farinha…
Saio dali e vou espreitar lá
fora. Vejo uma “mana” sentada num caixote, ao longe, braço esticado a virar uma
peça de galinha; coça a carapinha, vira de novo, funga o nariz, olha a galinha
e encosta-se para trás contando casos com o companheiro que anda por ali, volta
a virar a galinha e espera, naquela brandura de costumes que só o africano
entende. Volto à sala pobre, olho para a mesa e a cara do João Luís parece-me
verde. Pergunto por ali onde fica o quarto de banho.
– Ali ao fundo, à esquerda,
dizem-me.
Chego lá pisando lama e outros
lixos e deparo-me com um buraco a servir de porta numa parede de barro e tijolo
velho. Dentro, no chão de cimento, havia uma cratera aberta, negra, sem fundo.
Assustei-me e enquanto fazia para ali as minhas necessidades num equilíbrio
duvidoso viajei no tempo e lembrei-me, lembrei-me bem… que já tinha visto
lugares assim, em Angola, para servir os indígenas nas casas dos seus patrões.
Aguenta-te mulher que o mundo é redondo!...
No Restaurante do dia seguinte a
mesma cena: esperar, desesperar. Horas depois suplicar pela galinha e a
resposta:
– Está discascar batatas Sinhora
– Onde é a casa de banho?
– Ali…
Fui e fugi a correr.
O cheiro a ácido era venenoso,
não havia água e a sanita transbordava de caca.
Chamei um empregado e ele veio
com uma lata velha e tomou água da chuva de um grande bidão onde nadava todo o
tipo de porcaria. E lá foi água para a pia. Como não havia água para lavar as
mãos fui até à cozinha pedi-la. Ao chegar ali entreguei-me, definitivamente, a
Deus! Os empregados lavavam as loiças numa água barrenta que tiravam de uns
baldes e cozinhavam em panelas velhas e sujas com água vinda não sei de onde.
Como tinha pedido água a ferver para fazermos café na garrafa de termos,
perguntei de onde estavam a tirar a água que iria servir às mesas.
– Daqui Sinhora, esta água vem di
sítio bom…
– Mas esta água barrenta… como
sai assim?
– Sai inssim dos cano Sinhora…
– E vocês bebem esta água?
– Não, bebi dos tambori…
África minha!... África da minha
alma, das minhas entranhas, como eu amo este chão!..
E de novo em
Tete, onde a temperatura vai aos 48º/50º. Destilo. Estamos parados numa bomba
de gasolina há 1h. Pouco falamos, não apetece… Saímos do Hotel às 6,30 e já são
8,30. A gasolina acabou em toda a cidade! O camião cisterna, aqui também
parado, aguarda a chegada do patrão para dar início ao enchimento do depósito
da Estação de Gasolina. Entretanto os empregados vão dizendo, entre dentes, que
a gasolina só vai chegar até ao fim do dia, depois acabará. Chegou o patrão mas
falta vir a dona da Estação, ela é quem dá autorização. Enquanto esperávamos
pela dona da gasolineira fui em frente comprar pilhas para a máquina
fotográfica; um chinês que não falava inglês nem português pediu-me 1 milhão de
Meticais, ou seja 1.000 Meticais, na nova conversão, ou seja, 36 Euros por 4
pilhas! Apeteceu-me enfiar-lhe as pilhas num sítio… Mais ¾ de hora. Por fim
aparece uma indiana, pequena, autoritária, a dar ordens de cabeça erguida e
peito inchado. Não sei porquê fez-me lembrar um polícia sinaleiro. E os
empregados lá vão cumprindo o seu trabalho, o seu destino, aposto que
explorados pela mulherzinha.
Voltei para a Bomba de Gasolina,
sentei-me no Jipe e vi ao meu lado um camião Magirus que veio abastecer-se de
gasóleo. Encheu o depósito e à falta de tampa do mesmo, que terá perdido, pegou
numa lata de Coca-Cola velha e… aí vai disto, tapou o depósito com ela!
Tudo neste País, adormecido no
tempo, me parece viver num estado letárgico; os pés arrastam-se, balançam-se
gestos e até as palavras parecem pensadas, pesadas, medidas e balbuciadas num
misto de doçura e receio; o povo é meigo e doce, raramente se vê uma pessoa
arrogante. Só nos hotéis, por vezes, se vêem entrar umas “avestruzes”
emproadas, de popas ao alto a encimar uns 100kgs de banha balançada por um “
mataco”, tipo prateleira; entram na recepção, cabeça erguida, deitam um olhar à
“la mirone” à sua volta, o que lhes tira, por momentos, a atenção ao 1º degrau
da escada que já teve, em tempos idos, um pavimento firme e seguro.
De referir que neste País a
renascer lentamente, muito lentamente, à beira do Índico, o que mais se vê são
reclames de Coca-Cola e cerveja Laurentina; difícil é encontrar água engarrafada!
CHIMOIO
Chegámos a Chimoio, antiga Vila
Pery, é dia de Natal. Dormimos no Hotel Castelo Branco, o único hotel limpo e
com um serviço de qualidade que encontrei até agora; à volta do hotel é só
mato, miséria e porcaria, ninguém dirá que existe este oásis aqui. Ontem acendi
uma vela e comemos nozes e passas e foi assim que lembrei a festa de Natal.
Porém, no meu coração, Ele estava bem presente. Aliás, dificilmente, poderia
esquecer Cristo, Ele aparecia-me em cada rosto de criança, especialmente na inocência
dos seus olhos; via-O, também, no olhar perdido de tantos adultos, olhar
carregado de interrogações e de espanto…
Fomos a uma esplanada e pela sua
estrutura, bem como pela sua localização, pude ter a certeza de que terá sido
ponto de encontro de muitos amigos no fim do dia, depois do trabalho, no tempo
colonial; via-se bem a força do estilo dos anos 60 que imperava em todas as
cidades da África portuguesa, linhas direitas formando ângulos de várias cores.
Agora o espaço é escuro e as cores rosa e azul tornaram-se pálidas e
descascadas; a porcaria abunda; as mesas corridas estão peganhentas e os bancos
forrados a plástico deixam ver o interior sujo; pelas mesas gente estendida,
barrigas gordas de cerveja em corpos suados, com o sempre presente cheiro intenso
de catinga; os empregados, como sempre, amáveis e simpáticos, serviam toda
aquela gente que comia e bebia sem se preocupar com o que caía e para onde;
todos negros, só nós brancos. E lá vou eu… anos 60: todos brancos e nenhuns
negros...
Revolução de costumes, hábitos,
comportamentos, apenas a miséria é a mesma, ou melhor, aumentou, porque a forma
lenta, vagarosa e quase indiferente com que se gere a reconstrução desta Terra
só pode dar origem ao caos que se vê, que me assusta e dói…
Como há-de esta pobre gente
limpar os locais em que vive se o que ganha não lhe chega para comprar pão?!
Detergentes aqui são luxo. Porque hão-de trabalhar mais e depressa se o
vencimento é de miséria?!
Sentados, pedimos o prato do dia;
nem pensar pedir seja o que for para ser feito.
– Lulas de caldeirada, queri?
– Pode ser.
Depois de muita insistência, lá
chegaram as lulas cheias de temperos, duas batatas e muito arroz. Depois
pedimos 3 pudins que até estavam saborosos; vieram em 3 taças com 3 colheres de
sopa.
– Por favor, não tem colheres
pequenas? (quase disse –“Unguto cofelefele”)
– Tem…
– Traga, por favor.
Passado um bom tempo trouxeram 1
colher.
– E as outras?
– Ah!... Queri mais?!
E lá vieram as outras duas
pequenas colheres na mesma cadência de sempre, no mesmo arrastar de pernas, no
sempre eterno balançar de ancas, olhando para a esquerda, para a direita,
coçando a orelha, rindo para o patrício, limpando o suor da carapinha.
Pediu-se a conta. Errada! Sempre.
Ontem pedimos 3 pratos, debitaram 6.
A CAMINHO DA BEIRA
A barriga deu-me sinal a dizer
que não aguentava mais caril, mais pimenta, mais molho não sei de quê, molho
onde ia ensopando pão a enganar o estômago carente de um ensopado de legumes ou
de um bom bife, comido lá no Minho, em Friande, sob a oliveira do jardim,
navegando sobre o Vale da Paixão.
Olhei a escuridão e desisti de
procurar o W.C. não fossem saltar-me as lulas pela boca. Irei ao mato, decidi.
Em plena mata, em direcção à
Beira, peço ao João Luís para parar.
– Pára, não suporto mais.
O Isuzo desligou e eu meti-me
mato dentro. Segura à ramada de uma pequena goiabeira, dei a volta por trás e…
comecei a afundar-me, estava num pantanal e……. pantanal…….. jacaré……..eu
pensava rápido, com a mesma velocidade com que me desfazia em diarreia.
Por essa altura diz o João Luís:
– Mamã sai daí, não sei se este
lugar está desminado…
Fujo, atarantada, de “Dodot” na
mão.
À noite a televisão recomenda
cuidados acrescidos dizendo que as diarreias apareceram e que é um dos sintomas
principais da malária, para além de fortes dores de cabeça. O João Luís, pouco
depois, diz ter uma forte dor de cabeça. É malária, diz convicto.
Bem… Pensava seriamente estar
entregue a Deus pois as barbaridades que se faziam com a comida e bebida eram
de loucos.
Faltava pouco para a cidade da
Beira. Por toda a estrada o mesmo espanto que me roía por dentro e me esfarrapa
a alma, nem sei como dizer: casas e casas, fazendas e fazendas abandonadas; em
quase todas o capim tomou conta do chão e sobe pelo que resta de paredes negras
e sujas. São verdadeiros marcos da desgraça de quem partiu ou fugiu. Quanta
vivência, quanta labuta, quanta alegria testemunharam, quantos planos! E
agora?... Porque não estão habitadas por aqueles que participaram da sua
construção, andaimes de tantos projectos?... Não entendo e choro, não há alma
que aceite “ aquelas coisas sem vida” esburacadas, gritando aflições, pecados,
injustiças, ansiedades, sonhos que fazem parte da história desta gente. Será
que existe um propósito, uma finalidade, uma intenção de espalhar um grito de
vingança, de ódio contido durante séculos, naquela forma? Custa-me a crer.
Ao perguntar a razão para tal
abandono dão-me duas resposta:
– O povo tem medo, é muito
supersticioso; e também há gente que deseja morar nas casas mas o governo exige
que as comprem, mas povo num tei dinheiro nim p´ra comer…Como podi comprar?
Na selva então dói mais: vêm-se
cubatas miseráveis e mesmo ao lado uma casa vazia, oca. – Meu Deus… porquê??
Se atentarmos, à noite, poderemos
ver, certamente, cobras a deslizarem pelas bocarras das portas e pelos
olhos/janelas em ruínas; aranhas e outros bichos tecerão seus ninhos e tocas,
dando lugar ao aninho antigo, às jarras de malmequeres e sempre-vivas, às
cortinas de tule e às colchas adamascadas. Os sons de agora são os piares dos
morcegos, felizes pela sua liberdade; agarram-se às paredes que outrora
escutavam Francisco José e Alberto Ribeiro e a lembrar os anjos que por ali
brincaram de esconder, balbuciaram as primeiras palavras e deram os primeiros
passos, andam agora ratos ou galinhas de Angola com a filharada atrás e ciscar
o lixo.
E chegámos à Beira. No dia
seguinte, desolada, escrevia:
Se ainda me restava um laivo de
esperança de uma possível ida a Angola, aqui, ela morreu. Busco palavras para
exprimir a dor, a desolação, o espanto, a angústia que me vai na alma; não sei
dizer, não sei bem explicar a confusão de sentimentos e emoções por que estou a
passar; não sei se chore, se cale, se adormeça… A Beira tem todo o ar de ter
sido uma cidade linda, linda como um jardim em flor à beira mar plantado.
Lembra-me um pouco Luanda. No Hotel Moçambique, onde estamos, de 11 andares,
abro a janela e vejo restos de jardins, vivendas antigas e largas avenidas, a
lembrarem-me o Bairro do Café, o Bairro do Cruzeiro, o Bairro Miramar, chalets
de arquitectura genuína dos anos 50 e 60, de linhas puras, direitas a formar os
ângulos de que já falei, ângulos combinados de cores rosa, azul e verde, tudo
claro. Agora estão caídas, em ruínas, sem ângulos e as cores rosa e azul deram
lugar ao cinzento e negro. Aqui e ali palacetes imponentes na sua traça antiga
a deixarem, ainda, a ideia de vivências senhoriais, só que agora, a grande
maioria está ao abandono; algumas têm moradores que as alindaram com tons
garridos e cortinados de gosto simples a condizer com as posses do povo.
Dizem-me, a medo, que o ordenado mínimo nacional é de 1.000 Meticais, sendo que
milhões de pessoas não ganham tal. E o meu olhar vai para as inúmeras casas em
ruínas, desventradas, portas e janelas sem ser, como se as paredes instáveis
gritassem por aquelas aberturas os horrores vividos; como deixaram de ser
pintadas há 30 anos a sua cor é escura, indefinida e em muitas o capim abunda
nos seus interiores.
Há pouco, passámos frente ao
outrora imponente Grande Hotel. Tive um arrepio de alma, um atordoar de cabeça,
uma mistura de emoções que não me oferece qualquer forma de expressão perante o
que vi, realmente: em pleno centro da cidade, aquele edifício que terá sido o
mais importante em termos arquitectónicos, imenso, parecendo não ter fim,
mostrava-se desventrado, esburacado, uma “coisa cinzenta” e por entre os
buracos e varandas, – que adivinho terem estado enfeitadas de fetos gigantes,
patas de elefante e cactos raros –, viam-se miríades de cabeças e braços encostados,
olhando de lá de cima para o mar, pensando em que destino, em que formas de
ganhar o pão daquele dia.
Dói-me tudo! O povo ganhou a
liberdade mas como sofre!
Por vezes, na rua, tentamos
comprar umas ninharias para levar, a recordar esta travessia do absurdo.
Loucura! Pelo lado esquerdo e direito do Jipe entram montes de mãos:
– Mi dá esferográfica, dá
dinheiro!
Damos o que temos e a custo
fechamos os vidros das janelas e arrancamos, ouvindo as crianças a gritarem
pedindo não sei o quê. Rebento por dentro. O que fizeram a África, Meu
Deus!
INHASSORO
Procurámos desesperadamente um
hotel e nada, é fim do ano e está tudo ocupado. Por fim lá achámos um Resort
(Ah! ah!...) à beira mar. O complexo turístico em que tínhamos ficado antes, a
22 e 23 de Dezembro e de que gostei, – o tal das lagartichas –estava cheio, os
sul-africanos tinham invadido Moçambique, para férias nas praias. Aqui,
dizem-nos que a casinha tem 2 quartos, ar condicionado, geleira, água quente e
cozinha e ainda duas ventoinhas de pé. Diária: 2.000 Meticais. Pagámos. Ao
ocuparmos a casa o ar condicionado não funcionava, as ventoinhas também não, a
geleira derretia-se com o calor, os mosquitos entravam e saíam, as portas não
fechavam e a água mal corria. A Helena teve de dar banho à Alicia, no lavatório
da cozinha, de garrafa, que antes se foi enchendo devagar. A casa de banho
deitava um esguicho de água do chuveiro e o autoclismo não deitava água.
Foi uma noite para esquecer, a
pior de todas, cheguei a chorar de raiva, de impotência, perante a roubalheira
do dono do hotel; este era o mais caro de todos e o pior.
De noite saí da cama já que era
impossível dormir com tanto suor, e toda molhada vim para fora. Sentei-me sob
uma árvore, sempre à espera de levar com um baratão em cima; besuntada de
repelente, os mosquitos davam meia volta e só zumbiam à volta, danados.
Levantei-me, foi à casa de banho
e ao sentar-me vi que a tampa era só para enfeitar, ia caindo. Mas, eis que a
minha pituitária dá sinal de alarme! E lá estava ELA a olhar para mim, pronta a
atacar, a desgraçada de uma baratona. Fugi porta fora mas antes atirei pelo ar
a tampa da sanita para o capim e foi ali que vim fazer chi-chi.
Ao longe os gritos das festas
lembravam-me as antigas rebitas em Angola. Ouviram-se meia dúzia de foguetes e
tudo o mais foram gritos e berros de alegria a que não era estranha as
toneladas de cerveja que víamos vender estrada fora. Com ela o povo adormece a
dor e a fome, só pode ser. Eu, sentada numa cadeira de plástico, no meio do
capim, num fim de mundo, tendo por companhia morcegos e bichinhos vários, ia
limpando o suor que corria e molhava tudo onde me sentava. A aragem lá fora
sempre era melhor… então, encostei a cabeça à parede e adormeci sentada,
entregando a alma ao meu Bom Deus e à bicharada…De referir que se salvou o dia
último do ano, pela belíssima e saborosa posta de peixe grelhado que ali comi
com batatas cozidas e uma salada, FINALMENTE!
INHAMBANE
De Inhassoro a Inhambane 450kms e
depois mais procura de hotel… Nada! Fomos para o Instituto de Hotelaria. Era
suposto ter umas instalações boas, mas não; tudo simples e degradado.
Vê-se bem, por todo o País, que
os dinheiros públicos devem ir para os bolsos de alguns e que o povo é tido
como coisas a gerir ao belo prazer de uns tantos.
A cidade deve ter sido linda já
que os edifícios e vivendas a ladear as grandes e largas avenidas dão
testemunho disso. Vê-se ter sido construída esta cidade por gente de grande
visão só que… esqueceram a parte humana e deu no que deu: vingança, ódio, destruição.
Volta a ver-se a mesma desolação indizível: os “olhos” esbugalhados até à
desesperança e a “boca” aberta, aberta a querer soltar o “grito” sem tamanho,
sem forma, todo ele espanto desconforme, envolto em escuro, lixo, ruínas,
capim, latas, pneus, paus, mais lixo e abandono. Assim são as janelas/olhos e
portas/bocas dos milhares de casas que vou levar na alma, carregada de angústia
e interrogações sem tamanho. Porquê?... Porque não as habitam? Cada casa que
vejo é como uma machadada de ódio, parecem dizer: – Aí está a vossa fuga a
vossa ruína, hão-de cair de podres, elas são os marcos da vossa desumanidade.
E se a finalidade é ferir e
perpetuar o sofrimento da fuga e da desgraça, tudo está conseguido.
BILENE
Chegámos a Bilene. Vivendas,
palacetes e grandes edifícios estão recuperados, pintados e com jardins mais ou
menos lindos enfeitados por plantas tropicais, exóticas, que abundam por todo o
lado; o canto mavioso dos pássaros faz o resto. Mas… ao entrar nos edifícios
tudo muda: sofás descarnados, cadeiras partidas, cortinas rasgadas e penduradas
por fios; vidros sujos, lixos, cheiros nauseabundos, destruição e mais
destruição. Parece que a palavra de ordem é DESTRUIR. Já ontem me espantara o
tal Instituto Hoteleiro que acreditei estar apto a ensinar futuros
profissionais. Afinal, dentro, tudo era pobre e a necessitar de limpeza.
Espantei-me ao entrar numa enorme sala onde figurava um televisor gigante que
deve ter custado uma fortuna; estava sobre um estrado e à sua frente, cadeiras
e sofás, de pernas para o ar, lixo e desmazelo por todo o lado. Parece que nada
interessava, não existe motivação para coisa alguma, só interessa farrar e
beber, o dia de amanhã se verá.
No meio de todo aquele
desinteresse, a mesma simpatia, a mesma doçura, a mesma gentileza de sempre.
Ao fim da tarde, sentei-me num
varandim perto da praia, na casa que alugáramos, numa zona turística. Aquele
local deve ter sido lindo e procurado em tempo de férias por gente de dinheiro.
Vim a saber, depois, que se tratava de um bairro de férias dos serviços dos
caminhos-de-ferro moçambicanos, na era colonial. Chamei a empregada que fazia a
limpeza possível – sem detergentes, segurando um trapo e uma espécie de
vassoura. Chamava-se Sofia. Linda, jovem, um corpo perfeito, doce. Falámos um pouco
sobre a vida dela e da luta do dia a dia sem esperança, sem cor, sem futuro; a
medo, disse-me ganhar 700 Meticais e eu encolhi-me… Às escondidas, dei-lhe
100Rands = 350Meticais, ou seja metade do seu ordenado. Ficou parada, com o
dinheiro na mão a olhar para mim e eu percebi que ela esperava que eu lhe
pedisse alguma coisa. Disse-lhe adeus e ficámos as duas felizes.
SITUAÇÕES HILARIANTES
Também aconteceram situações
hilariantes:
Na estrada que liga Inhambane a
Bilene, o nosso Jeep seguia de vidros abertos quando uma pedra vinda não se
sabe de onde, veio bater na parte lateral do carro. Na mesma altura que
parámos, avistámos três miúdos numa bicicleta a fugir para dentro do mato; o
João Luís saltou, correu atrás deles mas nada. O carro ficou amolgado e foi um
milagre – a juntar aos outros – não ter acertado na cabeça de um de nós, era
morte certa. Voltámos para trás e procurámos pela esquadra da polícia. Fomos
dar com umas ruínas que nos disseram ser a esquadra. E era! Veio o agente,
fardado e muito educado e juntos deslocamo-nos ao local do acidente. Ao
chegarmos perto, lá andavam os miúdos que devem ter pensado que nos tínhamos
ido embora; quando nos viram, atiraram a bicicleta pelo ar e desapareceram,
como gazelas, no mato. Nem nós nem o polícia lhes pusemos mais os olhos em
cima. Ali, no meio do mato, fez-se a ocorrência dos factos e ao olharmos para a
bicicleta vimos, espantados, à volta das rodas, escrito a tinta vermelha, o
nome e a morada dos pequenos proprietários. A bicicleta foi apreendida, levada
pelo agente, com a promessa de castigo aos miúdos. Eu, interiormente e porque
tudo não passou de uma amolgadela na chapa do carro, ria-me ao lembrar a fuga
fantástica dos miúdos.
Depois também houve susto e medo:
Ainda mais à frente, na mesma
estrada em que os miúdos atiraram a pedra ao Jeepe, três indivíduos ao verem o
carro avançar levantaram as catanas que tinham nas mãos e com ar ameaçador,
directos ao carro, fizeram descrever no ar um arco de ataque ameaçador. Não
passou disso.
Mas o que se seguiu meteu-me
muito medo.
Eu e a Helena estávamos à beira
da Lagoa Inharrime que me parecia mais um rio que uma lagoa. O João Luís
tentava pescar na água que era doce, muito embora, por vezes, se misturasse com
água salgada quando o Índico por ali entrava.
Três crianças passaram, levando
na mão dois peixes acabados de pescar; meti conversa com elas, dei-lhes comida
e uma esferográfica, agradeceram e foram-se embora. Logo voltaram e
ofereceram-me os peixes. O João Luís ao voltar ficou admirado pois não os tinha
comprado por os achar caros. Pouco depois, notei que o João Luís tinha
desaparecido com a cana de pesca e nós não o víamos em lado algum. Ficámos
sozinhas, eu, a Helena e a menina. Nisto vi avançar para nós três matulões com
um ar de quem vai atacar ou assaltar; cheia de medo lembrei-me de começar a
acenar para um Jeep que se encontrava no morro acima de nós e eles
afastaram-se, olhando de esguelha. Logo, logo, vi o Jeepe ir-se embora e
reparei como eles conversavam a planear voltar para trás, olhando insistentemente
para nós. Comecei a sentir-me perdida, indefesa e, nesse momento vi, ao longe,
aparecer o João Luís. Gritei por ele tanto quanto pude. Metemo-nos no Jipe e
eles ficaram a ver-nos ir embora, lançando-nos um olhar e risos como quem
dizia: - Sorte!
Sorte! Penso que foi o que mais
tivemos. Pouco andámos de noite nas estradas mas o pouco que viajámos deu-me
para me aterrorizar: os carros circulam TODOS com os mínimos e as bicicletas e
motorizadas não têm farolim. Porém – paradoxo sem tamanho – de 10 em 10 kms
aparece um sinal de trânsito a limitar a velocidade para 60kms. É de loucos,
nem dá para acreditar, chega a causar desespero ter de andar a tal velocidade e
os polícias que não estão em lugar algum estão escondidos atrás das árvores e é
só ver montes de carros a parar. Assim, como não podia deixar de ser fomos
multados e nem valeu ao João Luís apelar para todos os Santos. Mas, meu Deus!!
As camionetas e camiões passam carregados de tal forma que não se vê um carro
direito, andam todos de lado, tortos e a cair de podres e ninguém multa aqueles
condutores, é normal! Transportam cargas fenomenais e gente aos magotes,
empoleirada encima de tudo.
Chegámos à fronteira da África do
Sul em Inkomati e foi outra tortura: A fronteira de Moçambique foi aquela coisa
de correr, escrever, correr, escrever, sempre mergulhados num mar de suor,
cheiros e berros dados por um funcionário que, em tempos idos, deve ter sido o
escriturário lá do sítio e agora, perto da reforma, era o chefe dos serviços;
um espectáculo! Depois a fronteira da África do Sul: mais ordeira mais
organizada mas ainda a abarrotar de gente; muita confusão, muito e muito calor,
muito e muito suor e muitos quilómetros ainda para andar.
Chegámos a 4 de Janeiro de 2007.
Eu vinha esfomeada, cansada e
desatei a chorar com saudades de casa. Fizemos 6.027Kms em 15 dias: eu, o João
Luís a querida Helena e a bebé Alicia.
Como duvidar? DEUS estivera
sempre connosco.
VOLTAVA ÁS MINHAS ORIGENS …
Antes de voltar para Portugal,
deixei-me ficar por longas horas, repartidas por vários dias, no silêncio da
minha alma, avaliando a minha última estadia em África:
As gentes, o povo… sempre o povo.
O que mais interessa se não as gentes? São ricas na grande maioria mas,
inexplicavelmente, são tratadas como coisas, objectos, pedras de um xadrez
gigante, num jogo que não tem fim…
As acácias que estavam lá à minha
espera… só não vi gajajas mas vi a flor do imbondeiro.
A bosquimane de olhitos rasgados
e brilhantes.
O Lago Malawi de peixes azuis e a
aurora a chamar-me com a força da imensa neblina aveludada sobre as águas; os
esquilos e o canto da passarada a saudarem a chegada de cada dia…
A Mimi e a Carlota…
Voltaria “carregada”, mas a minha
bagagem era invisível e intransmissível. Com ela atravessaria o espaço do
“Mapa-cor-de-rosa” onde, havia 400 anos, tudo era puro e selvagem, a nossa
“civilização” não tinha ainda aparecido por ali. Ainda não tinham chegado os
arautos da fé de Cristo, de mão estendida, mantendo a outra atrás das costas e
os olhos bem ao longe, na cata dos minerais. Viriam santos misturados com
pecadores, almas nobres de braço dado com interesseiros e estes últimos fariam
esquecer os primeiros e ficariam na história como homens valorosos.
Voltava às minhas origens, – a
que chamarei genéticas –, mais rica, cada vez mais rica, milionária. Desta vez,
já bem adulta, “pesara” a mensagem que África me havia oferecido de uma forma
única, sem paralelo; poucos terão possuído em toda a sua vida tanta fartura de
vivências interiores e, também, a poucos terá sido dado uns olhos que sabem ver
para além do material. Deveria viver o resto da minha existência agradecida por
todos os tesouros que me foi dado descobrir.