sexta-feira, 10 de abril de 2015

À BEIRA DO LAGO MALAWI



                   - Livra!.. Que calor Carlota! Está a custar-me tremendamente descolar as pernas. Quem diria que, já ao fim da tarde, haveria de fazer tal calor!? Ali à frente o Lago está naquele tom azul esverdeado que indica, quase sempre, uma aragem fresca e doce mas hoje enganou-me. E depois… esta barriga! Até parece que estou à espera de filho. Os membros pesam-me, olha como me arrasto!
                    - Óh! Também não percebo porque te queixas tanto! Olha para mim, olha para a minha barriga, é tão grande como a tua. Mimi!!! Olha, olha, atenção querida! A luz acendeu-se, agora é que vai ser… Prepara as kinamas.
Quando Mariquinhas acendeu a luz do varandim do bungalow encantou-se, ou melhor, ficou espantada com a quantidade de insectos, de tamanhos vários, que vinham bailar à volta da lâmpada colocada na parede; quando cansados, pousavam e depois retomavam o voo. Era nessa altura de descanso que tudo acontecia: Carlota e Mimi esquecendo as dores das articulações, a barriga cheia, bem dilatada e as imensas tarefas do dia e noite anteriores, saltavam. Saltavam de uma forma incrível, extraordinária, desafiando as leis da gravidade; pareciam camaleões em miniatura e seus olhitos dilatados, de cor esverdeada, ficavam maiores, disformes; as barrigas transparentes aumentavam, parecendo rebentar. Mariquinhas ficou estática, presa ao espectáculo invulgar e incapaz de arredar pé do varandim; os seus olhos lacrimejavam olhando as bichinhas e via bem como elas a olhavam receosas, reparava como elas antes de arriscarem um salto olhavam para si, atentas.
                        - Logo agora tinha ela de aparecer, que chatarrona, não achas Mimi?
- Não, não acho. Não me parece que tenhas razão. Repara naqueles cristais nos olhos dela. Eu aprendi, com o tempo, que as pessoas de olhos brilhantes, parados e com o ar de quem descobriu um tesouro, meio apatetadas, são doces e meigas. E vê lá Carlota, outro dia vi ela a andar com mil cuidados a admirar a nossa prima, a Juliana, que estava, dengosa, a tomar banhos de sol sobre uma pedra. Ela dizia assim – Zefineta!... Zefineta!... Claro que a Juliana fugiu!
  - Pois, pois…põe-te com essa treta toda e não vejas os anophelis que chegaram agora; sabe lá a gente quando volta a ter tanta fartura!
                       No enlevo de alma em que se encontrava, Mariquinhas nem reparou numa enorme “ Baratona” de dorso cor de chocolate, acabada de aterrar na porta de madeira, ao seu lado. Se a tivesse visto seria uma catástrofe para todos pois era bem sabido e conhecido o terror de Mariquinhas, ao ver perto tal bicho nojento e fedorento.
Carlota e Mimi estavam atentas, adivinhavam terramoto por ali…Já tinham contado a toda a família, lá em casa, o episódio pitoresco, hilariante, passado com Mariquinhas, em Malange, quando ela vivia em Angola, por causa de uma barata, cinzenta, enorme que entrou por uma janela da escola, à noite, e lhe foi pousar no pescoço. Contou ela que tinha gritado tanto que um colega virou a carteira com o susto, Áh!´Áh! Como a família tinha rido, até chamaram os amigos que pediram para repetir o caso. Ultimamente, até andava atenta a ver se Mariquinhas contava mais alguma estória de baratas.       
- Uhm…Uhm…. Mimi…. Olha onde aquela atrevida foi pousar! Ali na porta, ao lado da Mariquinhas!
Nesse momento Mariquinhas deu pela presença da castanhuda que olhava para ela como que a medir forças ou distância para lhe saltar em cima. Recuou, mão na boca, a pensar o pior. E foi aí, ao afastar-se que viu, pasmada, como Carlota e Mimi encetavam uma estratégia de ataque: mansamente, delicadamente, avançavam seus corpinhos brancos de barriga quase transparente, faziam lembrar leoas a preparar o ataque à presa. Quando tiveram a certeza que Mariquinhas as não ia incomodar, voaram! Mimi, talvez por estar mais leve, chegou primeiro, abocanhou a viajante intrometida e com a bicha meia fora da boca desatou a correr para o abrigo do seu lar, ali bem por baixo do colmo, a servir de telhado à casa de praia. Curioso é que, por essa altura, surgiram mais dois vizinhos das duas amigas a quererem disputar aquele manjar.
Mariquinhas deixou-se ficar encostada à balaustrada da varanda num encantamento de alma, quase adormecida. Pensava como era fácil gostar daquelas osgas pequeninas… O que ela não sabia era do “festival” que acontecia na casa de Mimi. Esta, depois de ter feito a digestão da bicharona-baratona, chamou filhos, marido e vizinhança e contou-lhes (com mais alguns aumentos…) os momentos vividos junto da Mariquinhas. Depois falou-lhes da calma em que Mariquinhas havia ficado após se ver livre da barata e descreveu-lhes, também, as miríades de cristais que Mariquinhas fazia nascer nos olhos cada vez que se encontravam, ao fim do dia, perto do Lago.

Mangochi - Janeiro de 2007


                                      Isa Pontes




Sem comentários:

Enviar um comentário