À BEIRA DO LAGO MALAWI
- Livra!.. Que calor
Carlota! Está a custar-me tremendamente descolar as pernas. Quem diria que, já
ao fim da tarde, haveria de fazer tal calor!? Ali à frente o Lago está naquele
tom azul esverdeado que indica, quase sempre, uma aragem fresca e doce mas hoje
enganou-me. E depois… esta barriga! Até parece que estou à espera de filho. Os
membros pesam-me, olha como me arrasto!
- Óh! Também não percebo
porque te queixas tanto! Olha para mim, olha para a minha barriga, é tão grande
como a tua. Mimi!!! Olha, olha, atenção querida! A luz acendeu-se, agora é que
vai ser… Prepara as kinamas.
Quando
Mariquinhas acendeu a luz do varandim do bungalow
encantou-se, ou melhor, ficou espantada com a quantidade de insectos, de
tamanhos vários, que vinham bailar à volta da lâmpada colocada na parede;
quando cansados, pousavam e depois retomavam o voo. Era nessa altura de
descanso que tudo acontecia: Carlota e Mimi esquecendo as dores das
articulações, a barriga cheia, bem dilatada e as imensas tarefas do dia e noite
anteriores, saltavam. Saltavam de uma forma incrível, extraordinária,
desafiando as leis da gravidade; pareciam camaleões em miniatura e seus olhitos
dilatados, de cor esverdeada, ficavam maiores, disformes; as barrigas
transparentes aumentavam, parecendo rebentar. Mariquinhas ficou estática, presa
ao espectáculo invulgar e incapaz de arredar pé do varandim; os seus olhos
lacrimejavam olhando as bichinhas e via bem como elas a olhavam receosas, reparava
como elas antes de arriscarem um salto olhavam para si, atentas.
-
Logo agora tinha ela de aparecer, que chatarrona, não achas Mimi?
- Não, não
acho. Não me parece que tenhas razão. Repara naqueles cristais nos olhos dela.
Eu aprendi, com o tempo, que as pessoas de olhos brilhantes, parados e com o ar
de quem descobriu um tesouro, meio apatetadas, são doces e meigas. E vê lá
Carlota, outro dia vi ela a andar com mil cuidados a admirar a nossa prima, a
Juliana, que estava, dengosa, a tomar banhos de sol sobre uma pedra. Ela dizia
assim – Zefineta!... Zefineta!... Claro que a Juliana fugiu!
- Pois, pois…põe-te com essa treta toda e não vejas os anophelis que chegaram agora;
sabe lá a gente quando volta a ter tanta fartura!
No enlevo de alma em que se
encontrava, Mariquinhas nem reparou numa enorme “ Baratona” de dorso cor de
chocolate, acabada de aterrar na porta de madeira, ao seu lado. Se a tivesse
visto seria uma catástrofe para todos pois era bem sabido e conhecido o terror
de Mariquinhas, ao ver perto tal bicho nojento e fedorento.
Carlota e Mimi
estavam atentas, adivinhavam terramoto por ali…Já tinham contado a toda a
família, lá em casa, o episódio pitoresco, hilariante, passado com Mariquinhas,
em Malange, quando ela vivia em Angola, por causa de uma barata, cinzenta,
enorme que entrou por uma janela da escola, à noite, e lhe foi pousar no
pescoço. Contou ela que tinha gritado tanto que um colega virou a carteira com
o susto, Áh!´Áh! Como a família tinha rido, até chamaram os amigos que pediram
para repetir o caso. Ultimamente, até andava atenta a ver se Mariquinhas
contava mais alguma estória de baratas.
- Uhm…Uhm….
Mimi…. Olha onde aquela atrevida foi pousar! Ali na porta, ao lado da
Mariquinhas!
Nesse momento
Mariquinhas deu pela presença da castanhuda que olhava para ela como que a
medir forças ou distância para lhe saltar em cima. Recuou , mão na
boca, a pensar o pior. E foi aí, ao afastar-se que viu, pasmada, como Carlota e
Mimi encetavam uma estratégia de ataque: mansamente, delicadamente, avançavam
seus corpinhos brancos de barriga quase transparente, faziam lembrar leoas a
preparar o ataque à presa. Quando tiveram a certeza que Mariquinhas as não ia
incomodar, voaram! Mimi, talvez por estar mais leve, chegou primeiro, abocanhou
a viajante intrometida e com a bicha meia fora da boca desatou a correr para o
abrigo do seu lar, ali bem por baixo do colmo, a servir de telhado à casa de
praia. Curioso é que, por essa altura, surgiram mais dois vizinhos das duas
amigas a quererem disputar aquele manjar.
Mariquinhas
deixou-se ficar encostada à balaustrada da varanda num encantamento de alma,
quase adormecida. Pensava como era fácil gostar daquelas osgas pequeninas… O
que ela não sabia era do “festival” que acontecia na casa de Mimi. Esta, depois
de ter feito a digestão da bicharona-baratona, chamou filhos, marido e
vizinhança e contou-lhes (com mais alguns aumentos…) os momentos vividos junto
da Mariquinhas. Depois falou-lhes da calma em que Mariquinhas
havia ficado após se ver livre da barata e descreveu-lhes, também, as miríades
de cristais que Mariquinhas fazia nascer nos olhos cada vez que se encontravam,
ao fim do dia, perto do Lago.
Mangochi -
Janeiro de 2007
Isa Pontes
Sem comentários:
Enviar um comentário