A ORGIA DOS SAPATOS
Estou cansado!...
Estou cansado, cansadíssimo, sem
ânimo, sem motivação alguma.
Olho para mim
e vejo-me achatado, meio disforme e o lado esquerdo apresenta-se um pouco
gasto, la para trás, muito embora à frente as coisas não estejam melhores.
Desde o dia 4 de Junho tudo piorou, eu previ logo… Ela caiu, escorregou, e os
maleoluos partiram-se e ainda um outro osso chamado, parece-me, astrágalo –
nome esquisitinho!
Foi um longo
período de saturação para ela, presumo. E para mim?...
Fiquei
arrumado para um canto e vi os meus parentes serem atirados para o lixo numa
raiva descomunal, acusados da desgraça acontecida. Vá lá aguentar-se tanta
injustiça! É verdade que eles estavam velhos, gastos, mas todo o mundo sabe que
a água com que ela regava o jardim a ajudou naquele desequilíbrio repentino.
Que fazer? A corda, dizem, rebenta sempre pelo lado mais fraco e, na
desventura, é sempre útil arranjar um culpado. Convém…
E assim tenho
passado estes dias desagradáveis, na espera dorida de dias melhores.
O que me tem
valido é que, inteligentemente, vou esperando pela noite, quando ela se deita
sonolenta e indiferentemente, me atira para o lado; fico-me ali, frio e
distante, numa vigília atenta e quando finalmente o quarto é invadido por uns
rugidos agressivos a lembrar as primeiras tentativas dos homens das cavernas na
descoberta da linguagem, eu desperto e parto por aí fora voando.
Voando… Claro
voando! Esse foi sempre o grande sonho dela. Oiço-a dizer, por vezes, que o
consegue à noite. Áh! Pois… deve ser naquelas noites em que uma música divinal
lhe atravessa o peito e invade o quarto. Penso que ela tentou, já há uns longos
anos, voar realmente. Nesse tempo eu enfeitava-lhe os pés de azul e branco, com
umas tiritas entrelaçadas, leves como a aragem que nos envolvia. Estávamos na
Tunísia, em Hamamette, à beira mar. Ela entrou numa barraca, dentro do Castelo
e o vendedor convenceu-a de que aquele pequenino tapete para além de servir
para se ajoelhar ao rezar, virada para Meca, louvando o Profeta, também lhe
iria proporcionar grandes viagens no tempo e no espaço, além do mais – dizia
ele – o tapete era persa! Áh! Áh!
Ela voou e muito sobre o
Mediterrâneo, enlouquecida de prazer, o que me chegou a comover mas de Para-Pente.
O tapete veio connosco e jaz por aí, esfarrapado, esquecido no tempo como
acontece a quase todas as coisas depois de muito desejadas.
E eu?
Volta e meia ela olha para mim e
diz:
-Un!......
Tenho que procurar uma coisa mais leve, clara, moderna!
E eu renovo-me
é certo mas, verdadeiramente, só eu sei como.
Pela noite
dentro lá vou eu buscar o tapete, velhinho como ela, e parto para o Sul;
inevitavelmente é sempre para o Sul…
Rapidamente
encontro-me ou em Malange ou em Luanda, nas quedas do Duque de Bragança ou no
Kilombo. Fico por ali, em qualquer lugar e encontro-me! Que maravilha!
A última vez aterrei sob uma
mangueira, na “Fazenda dos Italianos”. Foi aqui que eu senti as pernas dela
tremerem de espanto, enamorada, e lembro-me bem quando ela me atirou ao ar –
coisa que fazia sempre que se sentia aflita, não sei porquê? Dispensar-me era a
sua prioridade, ela queria só ser ela sem apêndices; ela queria entregar-se à
descoberta do momento, nua, e como não o podia fazer tirava os sapatos. Eu era,
nessa altura, uma leve plica creme tendo um laço castanho a enfeitar-me e como
eu me sentia maravilhoso…Ninguém reparava em mim mas eu era importante, havia
participado da magia inicial dos olhares sôfregos dos dois.
Áh! Por falar
em maravilhoso: uma noite destas fui até Luanda e vi-me no dia em que a mãe
dela lhe ofereceu o seu primeiro par de sapatos de salto alto; eram cremes, com
buracos pequeninos, um salto fino baixinho. Lembro que foi a vez em que ela me
deu mais atenção: todos os dias me olhava babada e me colocava bem ao lado da
cama, de um modo especial. Como as pessoas mudam!...
E quando eu a
elevava naquele salto bem alto, finíssimo de um azul-marinho enfeitado de tiras
brancas! Unh!... Que elegância eu tinha e como a envolvia nessa magia que só um
sapato pode oferecer! Ficava linda e esguia e se colocava aquele vestido de
riscas azuis, em espinha, todos olhavam para ela, especialmente ele… Ingrata,
devias-me todo esse glamour.
E quando eu me
misturava com outros sapatos, os masculinos, os sem graça, deselegantes,
naquela pressa que vinha da pressa, da muita pressa do amor… Quanto testemunho
de amor! Nunca se lembraram que eu estava ali só, desamado…
A semana
passada fui até Malange. A cidade está triste, todos sabem e não há nada a
fazer. Encontrei por lá MONTES de parentes abandonados, esfacelados, sem forma
e alguns a servir de tampão em paredes, à falta de outros materiais para tapar
buracos e buracões. Fiquei desolado, caramba! Senti-me assim como um andaime; a
gente serve para enfeitar, para ajudar numa conquista e até, muitas vezes,
ganhar guerras e, na hora seguinte, após o efeito desejado, atiram-nos fora.
Mundo ingrato, mundo cão!
Que mundo cão?
Mundo sapato, isso sim!
Mas lembro bem
que foi ali, em Malange, que consegui, um dia, atrair a sua atenção sobre mim
mais tempo:
Se calhar nem
será correcto falar nisto… Ela olhava fixamente para mim e para o meu parceiro
há mais de uma hora; estava sentada no chão de uma casa com as duas filhas mais
velhas, uma de cada lado. Por toda a casa viam-se pessoas sentadas no chão,
chorando e gemendo, com olhares apreensivos e ela parada, olhando os pés, os
sapatos, só, agarrada às filhas. Fora, ouviam-se rajadas de metralhadoras e
morteiros. Só muito tempo depois me apercebi de que ela não olhava para nada,
nada, simplesmente esperava…
Então ontem,
arrastando-me quase, fui até Luanda. Ela foi tão feliz ali!... Acompanhei-a
sempre, tanto no amor, como na dor, fiel, procurando suavizar-lhe o chão,
guiando-lhe os passos ora agitados, ora tímidos, ora cansados, doridos. Parei
frente à sapataria onde ela magra, olhar perdido de tanta dor entrou e disse:
– Por favor,
quero aquelas SOCAS de salto 19.
Descalçou-me –
já nem sei como eu estava, qual o meu formato, a minha cor – e enfiou no pé uma
linda soca azul-marinho, toda em pele, bordada a branco e com um salto de
19cms. Era o último grito em Luanda, na moda, claro, 500$00, uma fortuna. Ela
calçou-me. Mas, só eu ouvia os gritos que ela exalava da alma em revoada; saíam
pelos olhos, pelos poros, só eu os ouvia mais ninguém. Era a sua última compra
em Luanda, antes de deixar Angola, para nunca mais voltar. Acompanhei-a nesses
últimos passos na frescura daquela compra e empossado no novo estatuto todo
azul. Eu representava, afinal, um marco. Agora compreendia porque estavam as socas
há tantos anos na estante, lado-a-lado com os livros, intocáveis, belas!
Parece-me que
não estou a ser justo... Terá sido por mim que ela um dia resolveu fazer uma
colecção?
As pessoas fazem colecções de caixas de
fósforos, de isqueiros, de facas, de colheres e até de terços, mas de sapatos!
Pois… Ela tem na sala uma bela colecção de
sapatinhos, pequeninos, maravilhosos. Têm vindo das cinco partes do mundo. Há
sapatos de prata, de cristal, de madeira, de barro, de couro, de plástico, de
pano e até já vi lá uns de chocolate. Como ela é malandra! Arranjou desta forma
uma maneira de viajar, sem tapete. Vem tudo até ela e ela, depois vai, noite
fora, até outros lugares.
Amanhã, quando
voltar para casa, hei-de ”aterrar” no centro daquelas miniaturas. Sei que irei
encontrar por ali dias de sol, de Primaveras eternas, de vitórias conseguidas
em outros mundos, de rendas de Veneza e cristais da Boémia, dragões e amuletos
dos Templos Maias misturados com pequenos ratinhos de campo, bem como grutas
encantadas, tudo a enfeitar os delicados parentes meus. Será uma festa, uma
orgia de sol e cor, de renascimento, de paz, enfim…
Hei-de
encontrar-me eu sei.
Depois virá
uma outra espécie de cansaço e eu olharei para mim, penso, agradecido à vida e
a ela e, levemente para não a perturbar, irei repousar dentro da minha pele
azul bordada de 19cms que enfeita a estante lá de casa.
Isa Pontes
1-1-2008
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