sexta-feira, 10 de abril de 2015



                                                    COM  AMOR EM  KALANDULA

                                  Amor
, tive tanta vontade de falar contigo hoje…

                                  Sabes lá o que eu fiz!

                                  Estava meio desorientada, só, infeliz pela tua ausência. Meti-me na carrinha e conduzi uns bons quilómetros até chegar onde queria: Kalandula.

                                  Primeiro andei por ali, na parte de cima. Sentei-me na pedra onde tu estiveste parado a olhar para mim, enquanto eu te fotografava. Lá ao longe o rio Lucala corria mansinho, parecendo um fio de água leve. Ilusão… Andei saltitando sobre as pedras enegrecidas e gastas pelo tempo, pelo imenso tempo… Algumas vezes a água cobre-as, quando o rio vem mais cheio, lá do cimo da nascente. É nessas alturas que as Quedas são mais imponentes, fortes; mostram uma imagem de luxúria porque nos arrastam a alma, o corpo e a mente. Poucos se apercebem desta imagem, poucos desmaiam de prazer ao olhá-las. Elas que têm sido testemunhas mudas, silenciosas, te tantas entregas de amor… Como o nosso…

                                  Também foi por isso que vim hoje aqui: fui espreitar a pedra gigante, já na parte debaixo que ao lado tem um tapete de verdura fina, a parecer um manto feito de segredos de almas. Foi ali que nos entregámos, sem peias; quem escutasse os nossos gemidos, pensaria serem celestes ou viuvinhas a brincar de ramo em ramo. Depois corremos a molhar os pés na água fresca do rio e ficámos de mãos dadas olhando… olhando e amando a imagem das Quedas frente a nós. Pouco depois, sem darmos por isso, estávamos molhados pela nuvem constante que se desprende das águas ao precipitarem-se no leito do rio que por ali vai abençoando terras e gentes. Como é possível não se acreditar na existência de Deus perante um espectáculo destes?

                                   Hoje tu não estavas lá, nem podias estar… Eu nem sei onde tu estás?... Melhor dito, sei: Tenho-te dentro de mim. Na minha solidão eterna, procuro-te e invento-te, sempre dentro de mim.

                                   E foi assim que me sentei na tal pedra que todos conhecem, todos fotografam, na pedra onde perdi o meu lenço azul. Andei por ali a falar contigo; disse-te que tenho mais lenços, só não tenho quem mos aperte sob a nuca. Talvez por essa razão agora não me fiquem tão bem. Contei-te porque estava ali, porque corri, voei todos aqueles quilómetros; cheguei a desejar ser pássaro para chegar mais cedo; quis saber se os meus olhos ainda te encontravam por entre o verde; se teria a sorte de sentir-te a embalares-me nos teus braços de vitorioso, sem medos, nem cansaços.

                                    Ó meu amor…Quanta ilusão!...

                                    Depois regressei. Vim pelo caminho cheia de ti e assim ficarei por muito tempo. Um tempo que agora se esgota e não me deixará voltar muitas mais vezes a Kalandula.



                                     Raquel


                                 20.12.2013


( das cartas de Raquel    -  Isa Pontes  ) 


Sem comentários:

Enviar um comentário